Danilo Vizibeli

“Doce perfume se evola,/ Um moço toca viola/ Ao luar, lá numa choça”. É assim que o professor Chiquito, amado mestre denominado por muitos, termina o seu primeiro poema, escrito aos 15 anos de idade: Chromo. A mente concentrada nas linhas do texto consegue forma as imagens de Minas e de Passos nos velhos tempos das fazendas.

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Professor Chiquito na juventude

Foi na Fazenda Córrego Fundo que nascera aos 13 de abril de 1922, Francisco Soares de Melo, o caçula dos nove filhos de Eusébio Coelho de Melo e Blandina Soares de Melo. No ano em que o Brasil era movimentado pela ideias literárias revolucionárias da Semana de Arte Moderna nascia um autor moderno sim, mas, com a formalidade de um parnasiano, como define Antônio Silveira Reis na introdução da Antologia Chiquito (organizada por Antônio Theodoro Grilo).

As palavras de Pedro Junqueira Bernardes, grande amigo de Chiquito, também devem ser destacadas: “Aprendemos com o professor Chiquito que formar o homem é, portanto, antes de tudo, formar a consciência para daí, partir para os demais aspectos da educação e da cultura”. Consciência que se reflete na espiritualidade elevada deste mestre passense como garante uma das filhas mais novas Ana Teresa Freire de Melo. “Não sou espírita. Mas, não é necessário sê-lo para perceber que um espírito muito evoluído habita em meu pai. Ele sempre foi de uma sensibilidade, de um conhecimento profundo acerca de tudo. Quando enfrentávamos desafios e perdíamos o prumo da razão ele vinha sempre com um outro olhar: ‘pra que isso? Isso significa isso e aquilo’”, lembra Ana.

E foi com um brilho nos olhos de satisfação que Ana nos recebeu em sua casa para trocarmos algumas palavras sobre a vida e obra de Francisco Soares de Melo. “Qual a entrevista de hoje?” Era a pergunta feita por muitos. E a resposta era: “o professor Chiquito”. Em frente ao portão do número 369 da rua Dr. Saturnino ele olhava de longe já nos seus 86 anos, na cadeira de rodas, e no fundo ele sabia: “sou eu o motivo da visita?”

É sim professor Chiquito, hoje Passos te visita e canta saudosa: “Passos vai, Passos vem! Passos é terra de quem quer bem”. E foi esse querer bem a opção de Chiquito. Nunca ao mal. Nem mesmo nos tempos frios da ditadura, em que não representava oposição, não concordou de maneira alguma com atos repressores e aprisionantes da vida. Foi partidário da UDN (União Democrática Nacional). Amigo do Dr. José Reis.

Aos 15 anos, o poema Chromo estava publicado no jornal O Dirário, de Belo Horizonte. Também aos 15 anos, publica a primeira obra literária: “Chama Inquieta”. “Tenho sede de água viva./ Oh! Com que ânsia atira ao poço/ O cântaro vazio de minha alma!” Sempre procurando reflexões acerca da alma, da vida e da morte Chiquito ia ao fundo do saber humano usando da palavra: português, latim e outros idiomas. Dominava a palavra, seja ela na forma em que estivesse: oral, escrita, verso ou prosa. “Ele falava pouco. Mas o que falava era preciso. As palavras certas no momento certo”, destaca Ana Teresa.

Em 1942 casa com Célia Freire de Melo com quem teve sete filhos: José, Maria Blandina, Inácio, Luiz (falecido), Eugênia Lúcia, Ana Teresa e Fernando. Desde cedo já lecionava antes mesmo de se formar. Foi bancário e teve uma sorveteria próxima ao cinema. Trabalhou em várias escolas: Estadual, CIC, Tiradentes e no antigo Colégio de Passos. Só depois quando nasceu a Faculdade de Filosofia de Passos é que fez Letras, por volta de 1968. E também deu aulas na Fafipa. Foi aluno de Gilda Parenti e de tantos que o tinham como mestre. “A Gilda falava que morria de medo de dar aula pra ele. Dizia que era uma responsabilidade muito grande”, brinca Ana Teresa.

É com o coração cheio de boas lembranças e olhos fumegantes de emoção que a professora Gilda lembra do aluno e colega de profissão. “Ele ficava sentadinho no último banco e nunca me questionou. Uma vez fui dar uma aula de substantivo e queria trabalhar um conceito filosófico e me confundi um pouco e perguntei a ele: como é mesmo professor? Ele disse: é isso mesmo que você está dizendo – e completou o que precisava ser dito”, conta Gilda ressaltando a imensa importância e a capacidade do mestre na condição de aluno. “Nunca usou da capacidade dele pra criar alguma dificuldade pra gente. Ele podia criar, ele sabia muito mais do que eu. Mas, tinha uma humildade enorme, me deu lições de vida”, enfatiza.

Em 1993, selecionou alguns poemas e montou a obra “Vigília” que só foi publicada em 2004 dentro da Antologia Chiquito que também traz algumas de suas traduções como “A Arte Poética”, de Horácio. “O pessoal de Passos tem muito respeito por ele, gosta muito dele. Acho que ele é muito valorizado em Passos, o que deve tê-lo motivado a escrever o Hino de Passos, bem como o Hino à Nossa Senhora da Penha e tantas outras poesias que retratam o cotidiano passense. Ele ama[1] Passos!”, afirma Maria Blandina, a segunda filha de Chiquito também presente na entrevista. O tempo todo da existência do jornal “O Sudoeste” ele estava lá em sua coluna aos sábados. Depois passou para a Folha da Manhã.

Quanto à educação dos filhos, era livre e aberta. “Ele deixava a gente bem à vontade. Não gostava de impor aquilo que ele gostava. Deixava a gente escolher o que queria. Se a gente perguntava me explica isso ou aquilo, se demonstrava interesse, na hora ele se prontificava. Nunca procurou influenciar”, lembra Ana.

O espaço Francisco Soares de Mello na Casa da Cultura é pouco para homenagear tamanha obra e dedicação deste professor que seguiu os passos do Bom Jesus dos Passos. Muito religioso, rogava sempre a Deus um futuro glorioso para Passos: “Vamos trabalhar, vamos progredir para Passos ser grande no Brasil”. Bem ao tom das cantigas de interior, ele deixava claro nas suas letras. Passos cresceu? Progrediu? Valorizou a obra deste grande escritor? Para que serve um escritor engavetado? Nosso convite é para lermos, estudarmos e vivermos os dizeres de Chiquito. Diz Pedro Junqueira no seu prefácio: “antes de ensinar-lhe um ofício ou uma profissão qualquer, é preciso que ele seja primeiro um homem bem formado, capaz de discernir entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, entre a verdade e as aparências enganadoras nas ações e nas ideias”. Escolhemos o bem, escolhemos o caminho de Chiquito.


[1] O texto foi escrito antes do falecimento do Professor Chiquito. em 8 de fevereiro de 2011.

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