Volto aqui a arriscar minha segunda análise musical neste blog. A primeira foi com a canção “Encontros e Despedidas”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, na voz de Maria Rita. Destaco a origem desse quadro de análises musicais em meu blog, advindo do Prof. Dr. Juscelino Pernambuco, professor do meu curso de Mestrado em Linguística na UNIFRAN, que tão bem faz as análises musicais na rádio Claretiana, de Batatais, disponível em seu site (www.professorjuscelino.com.br)

Hoje vamos de “Pedaço de Mim”, canção de autoria de Chico Buarque, na voz do compositor e da sublime cantora Zizi Possi, que esteve em Passos recentemente.

Preciso antes contar, que a ideia de analisar esta canção surgiu na estrada, indo e vindo de Franca e ouvindo nada mais do que Zizi Possi. Vejam que não minto, não vou escutar o Tchu Tcha Tcha, sequer em uma viagem. Vou ouvir algo que me faz bem, que eleva minha alma. Para ter contato com a podridão, já me basta olhar no espelho, e olhar para dentro de mim. Quão fétidas qualidades temos em nós! E é sobre isso que vem falar-nos esta canção. Apesar de ser uma canção dedicada ao tema da “saudade” temos várias polifonias, e várias polissemias (sentidos) nos versos de Chico.

Lançada em 1979 para a peça Ópera do Malandro, em pleno estágio da Ditadura Militar no Brasil, recorre a canção a definir o que é saudade, trazendo em cada estrofe as definições: Que a saudade é o pior tormento/ Que a saudade dói como um barco/ Que a saudade é o revés de um parto/ Que a saudade dói latejada/ Que a saudade é o pior castigo. No verso final temos o vocábulo “castigo”, mostrando o ápice da ditadura: castigar o homem por suas ideias, tirar um pedaço do homem por ele ser ele mesmo, deixando a saudade naqueles que tinham que se exilar e daqueles que tinham que se afastar dos seus entes queridos.

As estrofes da canção sempre começam com a composição: Oh, pedaço de mim/ Oh, metade afastada de mim/, variando-se os verbos no segundo verso: oh metade exilada; arrancada, amputada, adorada.

Zizi Possi e Chico Buarque interpretando Pedaço de Mim no final da década de 1970

Os sentidos da música se fazem com o simbolismo de um corpo sendo esquartejado, um corpo sendo destruído, tendo um pedaço arrancado do seu próprio corpo – carne – sangue – violência – interdição dos sentidos, da liberdade de expressão, da autonomia do ser durante a ditadura. Exemplo recente, o esquartejamento do Matsunaga, o crime mais torpe a que se pode chegar um ser humano. Desfazer-se o homem em pedaços, em migalhas que somos.

A frase que mais me chamou a atenção é a que diz que a saudade é arrumar o quarto de um filho que já partiu, e a parte em que se diz do sentir dor em um membro que já não se tem mais. Refleti sobre os pedaços que estão ligados a nós e que não nos desfazemos, pela saudade doentia, seja um relacionamento conturbado que investimos por não arrancar esse Pedaço de Mim, seja vícios, torpezas, seja defeitos, dificuldades no trabalho, não esquartejamos os pedaços que deveriam afastar-se de nós. Mas, no final da canção, dá se o veredicto: Que a saudade é o pior castigo/ E eu não quero levar comigo/ A mortalha do amor/ Adeus. Mesmo com tanta saudade o amor é a única coisa que vale a pena e não se deve dizer Adeus a ele. O nunca existir, o apagar completamente, não existe para o ser humano que vive numa sociedade em que o jogo ideológico e a memória discursiva voltam à tona. Não pode haver o adeus para o amor, tem que renascer a esperança, temos que viver, e fazer merecer por sermos o melhor pedaço de nós acoplados a seres que realmente nos amam, à essência divina, sem precisar cortar pedaços de mim, de ti, de vós, de nós. Sem nos desligar do self, do si mesmo, do genuíno que há em nós: COM AMOR.

 

Danilo Vizibeli

Jornalista, Professor e Mestrando em Linguística

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