Nunca gostei de filmes de ficção-científica e ação. Sou mais dos dramas, romances, aventuras e comédias, estas em doses homeopáticas. Quando lançado, portanto, o filme Matrix não me chamou a mínima atenção. Mas um dia, ao cursar Jornalismo, um professor, se não me engano de Semiótica, passou o filme para a sala, mas eu tinha faltado à aula. Peguei uma cópia do filme com um colega (ops, pirataria! God bless me!) e ao contrário do que deveria ter feito não assisti ao filme na ocasião. Ele poderia ter caído na prova e eu iria me enrascar. Não sei se caiu. Se caiu, eu “embromei”. Ele ficou guardado por anos. Até que ao iniciar a leitura da obra “Convite à filosofia”, de Marilena Chauí, ao explicar sobre o ato de filosofar, a autora faz uma comparação exemplar da intertextualidade de Matrix com o nascimento da Filosofia na Grécia Clássica.

Assim despertou-me o interesse em assistir ao filme e esses dias de férias de Natal e Ano Novo, eis que o degustei. Confesso que não foi fácil. Um filme muito complicado, cheio de efeitos especiais, metafórico, subliminar e tudo mais. Logo que terminei, fui para a internet pesquisar sobre o filme e me esclarecer mais e também retornei ao capítulo introdutório de “Convite à Filosofia”. Ao terminar de ler as palavras de Chauí quase cai em desespero, pois minha proposta era escrever uma resenha para este blog e como eu poderia fazê-lo se Marilena já o tinha feito tão bem em seu livro? Quem sou eu para me comparar a Marilena Chauí? Mas, ao relatar que a Filosofia nasceu do questionamento, inicialmente de Sócrates e depois de diversos filósofos, da realidade, do mundo, do homem, questionar-se e indagar a tudo e a todos, então não tive dúvidas, vou dar minha modesta opinião sobre Matrix.

Chauí chama a atenção para o nome dos personagens principais Neo (novo, ou renovado) e Morfeu (espírito, filho do Sono e da Noite etc…) e também destaca a parte do oráculo em que se exibe a frase em latim: Conhece-te a ti mesmo.

Diz a sinopse do filme: “Em um futuro próximo, Thomas Anderson (Keanu Reeves), um jovem programador de computador que mora em um cubículo escuro, é atormentado por estranhos pesadelos nos quais encontra-se conectado por cabos e contra sua vontade, em um imenso sistema de computadores do futuro. Em todas essas ocasiões, acorda gritando no exato momento em que os eletrodos estão para penetrar em seu cérebro. À medida que o sonho se repete, Anderson começa a ter dúvidas sobre a realidade. Por meio do encontro com os misteriosos Morpheu (Laurence Fishburne) e Trinity (Carrie-Anne Moss), Thomas descobre que é, assim como outras pessoas, vítima do Matrix, um sistema inteligente e artificial que manipula a mente das pessoas, criando a ilusão de um mundo real enquanto usa os cérebros e corpos dos indivíduos para produzir energia. Morpheu, entretanto, está convencido de que Thomas é Neo, o aguardado messias capaz de enfrentar o Matrix e conduzir as pessoas de volta à realidade e à liberdade”.

O filme trata da questão do real e virtual. Aborda inclusive, o livro “Simulacros e Simulações” de Jean Baudrillard. Em uma das passagens Neo é orientado: “O que é real? Como você define o real? Se está falando do que consegue sentir, do que pode cheirar, provar, ver… então, ‘real’ são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo cérebro”. E eis a continuação: “Tudo é simulação. O real é deserto”. Essa passagem nos coloca frente à pergunta de Sócrates: O que é? ao questionar a realidade, a verdade, a justiça, enfim, a vida.

A Matrix é definida por Morfeu como “um mundo dos sonhos gerado por computador, feito para nos controlar, para transformar o ser humano nisto aqui” (e mostra uma pilha, bateria), mostrando a concentração da energia. Somos energia e somos transformáveis. Nossos estados de alma não são os mesmos e a mente tem a capacidade de simular nosso estado maior. Eis que nos diz a lei de atração.

A Matrix, em tempos de se estudar Análise do Discurso, em que tanto temos que conceber e definir a Ideologia, é um sistema que aprisiona e assujeita o homem. È uma metáfora. É preciso, segundo o filme, que as pessoas acordem do sistema e que a maioria não está pronta para acordar. É preciso libertar a mente do medo, da dúvida e da descrença. Ficando o convite: “Liberte sua mente!” E o oráculo nos dá um conhecimento profundo de que “há uma diferença entre conhecer o caminho e percorrer o caminho”, advindo das idéias empiristas e do pragmatismo em que a experiência conta muito na jornada humana. O oráculo ainda acrescenta: “Para onde vamos é uma escolha que deixo para você”.

Um filme complexo, maçante, mas que se tornou poético, cativante, visto que procurei desvendar-lhe os seus segredos. A arte, e a cinematográfica principalmente, tem essa magia de nos levar ao questionamento, a indagação, por mais que não cheguemos a uma resposta exata, mas que busquemos a transformação de nós mesmos em seres melhores.

E é assim que Marilena Chauí define Sócrates, comparando-o a Neo que luta para vencer a Matrix. “Por que Sócrates é considerado o ‘patrono da Filosofia’? Porque jamais se contentou com as opiniões estabelecidas, com os preconceitos de sua sociedade, com as crenças inquestionadas de seus conterrâneos. Ele costumava dizer que era impelido por um espírito interior (como Morfeu instigando Neo) que o levava a desconfiar das aparências e procurar a realidade verdadeira de todas as coisas” (CHAUÍ, 2009, p.11).

E ainda que por mais longe estejamos da perfeição e de encontrarmos todas as respostas, de encontrarmos a sabedoria plena eis que com o filósofo Pitágoras de Samos temos uma definição bem plausível: “A sabedoria plena e completa pertence aos deuses, mas os homens podem desejá-la ou amá-la, tornando-se filósofos”.

Tenho dito, por hoje.

Um abraço a todos!

Danilo Vizibeli

Jornalista e Mestrando em Linguística

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 13 ed. 9 reimpr. São Paulo: Ática, 2009

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