Aqui vai um conselho de um leitor voraz que não desanima na leitura das primeiras páginas de um livro ou na leitura de uma única vez. Às vezes é preciso deixar o livro de lado, na estante, jogado às traças… Assim fiz com “Leite Derramado”, de Chico Buarque. Comecei a lê-lo e não consegui dar prosseguimento na leitura. Assim está encostado de molho e um dia sei que vou lê-lo.

Já com “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, foi diferente. Achei o livro deveras chato no início, mas pela grandiosidade da autora prossegui. Estava sentindo falta da poeticidade nostálgica de Lispector e nas páginas finais do livro ela é retomada.

Clarice foi uma autora, de origem ucraniana, mas recém-nascida trazida ao Brasil e que nos deixou escritos novos que marcaram a Literatura do Modernismo mais se aproximando dos escritos da contemporaneidade. Sentimentos, emoções, um rascunho da psicologia humana estão na obra de Clarice que é marcada mais pela subjetividade, por um “eu” que se traduz nas obras. Ela deixa de lado as caracterizações profundas de personagens, romantismos e lirismos e busca na racionalidade de cada um as emoções escondidas.

“A Hora da Estrela” foi publicado em 1977 meses antes de Clarice se internar em um hospital com um câncer generalizado. Foi o último romance publicado em vida e viera a falecer aos 52 anos.

Macabea personagem principal da obra é uma sonhadora, trabalhadora e às vezes ignorante. Datilógrafa, ouvinte da Rádio Relógio tinha vários defeitos, um deles não ser tão eficaz no seu trabalho. Conhece Olimpíco de Jesus com quem contrai um namoro, mas logo em seguida o perde para Glória, sua amiga de trabalho. Neste dia ela se pinta com um batom vermelho tentando se aproximar de Marylin Monroe, e faz desta a sua hora da estrela de cinema.

A hora da estrela é o momento da busca de cada ser por seus sonhos, de sentir-se melhor, superior, ou útil. Importante! Robusto! Vivaz! É a busca do ser humano pelo mais sublime que há em nós, a concretização do amor em exemplos de vida. É a estreia na tela do cinema de trajetórias bonitas, fortes, marcadas pelo poder da fé, do crer, do viver.

E eis que ela procura uma cartomante que lhe desvenda um futuro brilhante com um cara loiro que iria aparecer. E ele aparece e a atropela com um Mercedes Benz. E ela morre.

É a verdadeira hora da estrela. Hora em que todos nós vamos passar um dia. A morte: enigmática e ao mesmo tempo muito clara. É quando recebemos o Oscar da vida e somos estrelas de cinema. Somos lembrados, passamos a ter importância.

Mas que bom seria se pudéssemos fazer a nossa hora da estrela a cada momento. Ser marcante e receber um Oscar em tudo que fizermos. Uns recebem melhor roteiro, outra melhor atriz, outro ator coadjuvante. Somos seres que se completam nessa festa do red carpet que é a Vida!

LEIA:

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

*DANILO VIZIBELI é jornalista, professor no Núcleo Dércio Andrade – Educafro (Pré Vestibular) e Mestrando em Linguística pela Unifran

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