Falar sobre preconceito tornou clichê. Todos falam. A luta é grande para acabar com ele. Não é meu propósito aqui tecer comentários sobre o que seja o prenconceito, como a sociedade vivencia essa tendência deteriorante do ser humano de prefixar às coisas, às pessoas, às ideias um conhecimento prévio fundamentado simplesmente na concepção do gosto ou não gosto, faz parte do meu mundo ou não, é certo institucionalmente falando ou não, pertence ao senso comum ou não. Não é preciso falar disso.

O objetivo aqui é apenas falar do preconceito velado. Aquele que as pessoas sabem que têm mas negam tê-lo. Ou então vão tomando atitudes durante a vida que certificam atitudes preconceituosas ou excludentes, mas que na verdade vão contra suas próprias vivências. É objetivo aqui também desabafar, pois uso esse espaço para dizer aquilo que sinto.

O caso que tomo como exemplo para o preconceito velado é o do negro. Quando o censo perguntou se eu era branco respondi que sim. Mas quem sou eu para dizer que sou branco puramente, se tenho nas veias as raízes da negritude? Mas vela-se, esconde-se um preconceito com o negro quando pessoas morenas, ou pardas dizem-se e admitem-se totalmente brancas ou então por possuírem parentes negros acabam por desmerecê-los.

Assim acontece numa família (o leitor associe se ela é fictícia ou real). O patriarca é bem moreno, a matriarca podemos dizer que é branca. Um dos netos veio da relação de uma filha com um negro e uma neta do filho com uma branca. A diferenciação dos pimpolhos é evidente. E sempre há um comentário: esse negrinho etc…

O pior preconceito é esse dito velado. Aquele que se tem, mas não se reconhece a existência dele. É mascararmos uma situação com fantasias e utopias que na verdade nos coloca numa posição “superior” quando realmente deveríamos ser o que realmente somos. É dificil olharmos no espelho e nos assumirmos como somos: com o cabelo despenteado, cheio de espinhas (no meu caso)… É comum ficarmos horas ali e contemplando uma figura que realmente não existe. Fantasiando, mascarando… Assim a vida vai levando o seu curso, mas um dia seremos colocados frente a frente conosco mesmos. E aí, poderemos fugir? “Agora vemos como num espelho e de maneira confusa, depois, veremos face a face”. (Sao Paulo, Epístola aos Coríntios). Essa nova vida é confusa e divergente mas chegará o dia em que tudo nos será clarificado.

Portanto minha gente. Acho que preconceito velado é pior do que o explícito. Porque o explícito já se sabe que ele existe e podemos dar início a sua correção. Mas o velado… Esse é a ignorância que prepondera nos menos preparados, nos menos esclarecidos, naqueles que vivem a matéria e nada mais.

Danilo Vizibeli

Jornalista, Professor, Escritor e Pesquisador