O artigo de Lia Luft, na Veja (sim, eu leio Veja, às vezes, mesmo que isso seja uma decepção) me inspirou a escrever o texto que se segue. O artigo de Lia Luft intitula-se “Livro eletrônico”.


 

 

O homem é um ser que tem fim. A morte é a certeza para todos, um dia o corpo carnal chega ao fim. Assim como o homem tem seu fim, começamos a atribuir a tudo que existe um fim, um término, um prazo de validade. Até para o mundo já determinaram alguns, que 2012 é o prazo final.

Assim como temos certeza (ou quase) de que o mundo não vai acabar em 2012, temos também a certeza (ou quase) de que os livros não acabarão.

Luft chama a atenção para o livro eletrônico, e-book que não veio para substituir o nosso amado e querido papel, folha impressa que tocamos, manuseamos e levamos aonde quer que seja. O rádio e a televisão não substituíram as conversas e a comunicação é cada vez mais crescente. Assim acontece também com os livros, não estão sendo substituídos.

Devemos refletir que o fim não existe. O que existem são ciclos. Concordo com Luft, mas não podemos deixar de observar que com o advento da TV, do rádio, o processo de comunicação sofreu sim grandes transformações, pois hoje estamos presos a meios, a intermediações que eles fazem para nos comunicarmos. O livro também passa por um novo ciclo. Houve época em que o livro era o grande relicário de todos os tempos… a maior diversão era ler. Hoje o livro compete com outras formas de comunicação e a minha tristeza maior foi ao ler uma matéria da mesma Veja em que a tecnologia está sendo usada na sala de aula para tornar as aulas menos cansativas e monótonas. Em uma escola são usadas imagens e vídeos de clássicos da literatura. Ora, a competição está evidente aí. Até na escola. Se o livro foi feito para ler porque devemos usar vídeos, artefatos para motivar os alunos a lerem? A motivação deve ser pelo próprio livro. O aluno tem que se encontrar numa relação de amizade com o livro; as bibliotecas têm que ampliar o prazo de devolução para que os leitores sintam o prazer de ler na hora que querem, na hora que querem interagir com o seu amigo. Temos que incentivar que com o livro criamos imagens virtuais ou até reais mais interessantes do que esse complexo de mídias virtualizadas na internet.

Não, o livro não acabará. Mas se não fizermos nada o leitor sim, acabará.

Publico nestas páginas fotos da minha pequena, ínfima, biblioteca e que tem praticamente a minha idade ou 5 anos a menos. Se contarmos que o primeiro livro que eu ganhei foi com 6 anos então minha biblioteca tem 19 anos. Se minha biblioteca tem 19 e tem essa miséria de livros que vocês veem é porque não sou um bom leitor. Se colocarmos um livro por mês, são 12 livros ao ano, multiplicados por 19 anos teríamos 228 livros. Não, não tenho 228 livros. Comemos, bebemos, mas não investimos nos livros, ou melhor, não investimos em nós, leitores, pois se temos tão poucos livros é porque lemos pouco.

O mundo não vai acabar, os livros não vão acabar, os leitores não podem acabar. Que possamos refletir o quão a leitura pode invadir nossas vidas, o quanto somos amigos da própria língua em que comunicamos, o quanto praticamos a atividade que nos é nata: comunicar. Ou se nos fechamos e isolamos e recebemos tudo pronto virtualizados pelos meios eletrônicos.

DANILO VIZIBELI

Jornalista e Escritor