O texto que venho apresentar logo abaixo trata-se de um comentário meu a respeito do texto “Discursividades contemporâneas e dicionário”, de José Horta Nunes da UNESP, que se encontra no livro: O discurso na contemporaneidade (Freda Indursky, Maria Cristina Leandro Ferreira, Solange Mittmann – Organizadoras/ São Carlos: Claraluz Editora, 2009). Estudamos e analisamos este texto no Grupo de Estudos em Análise do Discurso, coordenado pelas Professoras Doutoras Lucília Maria Souza Romão e Soraya Maria Romano Pacífico, na Universidade de São Paulo (USP), Campus de Ribeirão Preto.

Para entendermos o objetivo de José Horta Nunes (UNESP) no texto “Discursividades contemporâneas e dicionário” que é principalmente “refletir sobre a inserção de discursividades contemporâneas em dicionários de língua portuguesa” (p.99) convém apresentar o conceito de discursividade. Eni Orlandi (2007, p.68) nos mostra que uma discursividade “é o vestígio mais importante da materialidade histórica, em um texto, funciona como unidade de análise que se estabelece, pela historicidade, como unidade de sentido em relação à situação”. Portanto, podemos entendê-la como uma unidade lingüística que tem carga significativa expressiva. Por exemplo, uma discursividade que venho refletindo em tempos de Brasil em ano eleitoral é “democracia”. Se tivéssemos uma frase, por exemplo: “O Brasil é um país que adota a democracia”, teríamos nessa frase 5 discursividades: Brasil, país, adotar, democracia. Todas são carregadas de carga significativa e os demais elementos que compõe a frase são conectores, artigos, pronome relativo.

Conceituado o termo percebemos então que discursividades contemporâneas são unidades significativas que aparecem na atualidade, na contemporaneidade. Nunes encaminhou sua pesquisa selecionando a discursividade “arte contemporânea” como a principal e ainda utilizou-se de expressões da arte contemporânea como “grafite” e “hip-hop” para tecer suas reflexões. O autor separou 5 dicionários: Ferreira (1999); Houaiss e Villar (2001); Dicionário da Academia de Lisboa (2001); Wikcionário (WIKIPEDIA FOUNDATION, 2007a); Wikipédia (WIKIMEDIA FOUNDATION, 2007b) e analisou como tais discursividades aparecem legitimadas nos manuais dicionários da Língua Portuguesa.  Como objetivos da pesquisa ainda estão: “compreender alguns aspectos do modo de constituição de uma discursividade e seus efeitos na língua e no discurso (p.99) e “estudar a discrepância entre as práticas discursivas da atualidade e a produção de saber lingüístico” (p.99).

Essa discrepância nos é mostrada ao longo do texto trazendo os resultados da pesquisa que mostraram que as discursividades “arte contemporânea”, “grafite” e “hip hop” estão incluídas (ou às vezes nem aparecem) nos dicionários como sentidos prontos e acabados e tomados por uma simples e talvez única posição de sujeitos discursivos. “Grafite”, por exemplo, é confundido com pichação.

Assim podemos pensar também em outras discursividades que aparecem na atualidade e que muitas vezes não são inseridas nos dicionários. A língua apresenta um caminho da fluidez que é perpassado pelas modificações às quais sempre estamos presenciando. As práticas discursivas são ferramentas para a construção de novos saberes lingüísticos.

Um dicionário nunca é um retrato fidedigno da língua, pois muitas vezes ele fica estabilizado e preso às estruturas gramaticais. A língua oferece campo mais vasto. O autor identifica existir uma “falta na relação do real com o simbólico”. As palavras utilizadas no cotidiano esvaziam-se no calhamaço de páginas de um dicionário (Danilo Vizibeli). No dicionário estão descritas uma sorte imensa de palavras que figuram o real da língua, a língua em sua inteireza vocabular. Mas, o simbólico se perde no meio de tantas palavras, pois muitas vezes o simbólico, o falar cotidiano, as práticas discursivas atuais estão perdidas na imensidão de palavras de um dicionário ou então nem aparecem nele.

Cabe ficar atento também à noção restritiva de um dicionário. Toda vez que uma palavra se dicionariza ela passa a seguir um roteiro, um sentido pronto e acabado que só é possível aquele que existe dentro do dicionário. Existe o bloqueio de que os “sentidos podem ser múltiplos”. A carga significativa de uma palavra pode ser modificada pelo sujeito discursivo em seu uso. Alguns poetas exercem bem essa função quando atribuem às palavras o sentido que querem, fora daquele que é dicionarizado. É o brincar com as palavras na mobilidade da língua.

Ao fim do texto o autor completa a necessidade de “trabalhar desse modo nas fronteiras entre os discursos reais e os discursos de legitimação que sustentam um imaginário social, trazendo condições ao mesmo tempo para a compreensão dos instrumentos linguísticos e para sua ininterrupta crítica e atualização” (p.105). E nessa questão de atualização linguística surge o questionamento de como seria um dicionário escrito pelo cidadão comum? Quais palavras estariam nesse dicionário? Quais sentidos seriam aplicados? Os principais pontos da Análise do Discurso (AD) estão sendo postos em voga nesse artigo como a questão da multiplicidade dos sentidos (o sentido sempre pode vir a ser outro) e também a questão da exterioridade da língua. O que o artigo propõe talvez é que a exterioridade legitima muito mais uma língua do que o seu regramento, a sua restrição. A língua se legitima a partir do momento em que os falantes atribuem sentidos naquilo que falam e não no momento em que aproveitam sentidos já prontos e registrados num dicionário, por exemplo (Danilo Vizibeli).

Anúncios