Quem tem nada, é tudo? Ou, quem tem tudo, é nada? Dicotomias como estas se apresentam na contemporaneidade como repostas às confusões despertadas pela posse da matéria ou pela convicção, os valores da existência humana. É preciso lembrar a bidimensionalidade do ser humano que é um ser ao mesmo tempo material e espiritual. Independente de crenças na vida após a morte ou não, o ser humano age com o poder de construir, de erguer, de dar forma à matéria e ao mesmo tempo é um ser racional, com o domínio da emoção e do pensamento, pelos quais pode produzir conhecimentos.

Ao nascer a posse já está presente perante à vida. É preciso ter uma certidão de nascimento, é preciso ter um berço para dormir, é preciso ter um pai e uma mãe. Existir somente não basta. O que acontece é que a distribuição dos meios materiais acontece de maneira desigual em praticamente todos os lugares do mundo. Uns com tanto, outros sem nada. A grande confusão que se instalou é que o Ter e o Ser se confundem e só existe, só tem sua presença autenticada, num mundo moderno, aquele que possui. O valor do conhecimento, não do conhecimento acadêmico, preservado pelas escolas e academias, mas a raiz cultural de cada indivíduo e a riqueza vivencial dele próprio são deixadas de lado pelo simples egoísmo de se reduzir nas formas materiais que o mundo apresenta.

Estudiosos da indústria cultural, teoria crítica da comunicação apresentam a seguinte assertiva: “Cultura é pensamento e reflexão, pensar é o contrário de obedecer”. Quando o Ser busca obedecer à lógica do mercado de comprar e adquirir cada vez mais; quando o desejo impulsivo de querer aquilo de novo que o capitalismo nos oferece, o ser humano está se reduzindo se fazendo menor, e se alienando. Alienar é fazer-se estranho, absorver aquilo que é estranho para si.

Ser autônomo é buscar muito longe do consumismo as bases da felicidade, que é estado de espírito e não característica fixa. Uma pessoa não é feliz, ela está feliz. E em alguns momentos é possível estar feliz em outros não. Bem material algum pode tornar uma pessoa feliz, mas pode deixá-la num momento de euforia, num êxtase, neste estado de espírito que é a felicidade momentânea como citada. A felicidade não é definitiva.

A questão do ser, portanto está ligada com a identidade com a autenticidade em seus princípios e não em relação a suas posses. Respondendo às perguntas iniciais podemos ser uma pessoa que tem nada e consegue conquistar a sua autonomia enquanto ser que pensa, reflete e busca; podemos ser uma pessoa que tem tudo e se anula num simples ter por obter status, e condição acima do nível das maiorias; e podemos ter os caminhos contrários gente que tem nada e ao mesmo tempo é nada, gente que tem tudo e ao mesmo tempo é tudo. Não se pode continuar gerando este contraste vicioso entre Ter e Ser. Ser é condição de assumir identidade. Ter é condição de uma sobrevivência melhor, de condições físicas apenas e não de condições espirituais e racionais.

 Danilo Vizibeli – Jornalista

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