Série: Minha história de leitura – O que é um autor? (2)

O texto que segue publicado é um capítulo teórico de um artigo que escrevi para os Anais do I Silted – Simpósio de Linguística e Tecnologia Educativa, realizado em dezembro de 2011 na UNIFRAN. O artigo completo intitula-se: “Um acontecimento discursivo no Blog do Folhateen: ‘Merda e Ouro’, sentidos (des)estabilizados em uma escrita de si”. Esse excerto aqui publicado é para tratarmos da questão da autoria nessa série lançada aqui no meu espaço. A pesquisa completa aborda a práticas de leitura e escrita, numa perspectiva discursiva, manifestadas no Blog do Folhateen. Boa leitura!

O acontecimento, o autor, a escrita de si: questões de discurso

A AD Francesa é dividida metodologicamente, na visão pecheutiana, em três fases que não são estabelecidas cronologicamente, mas que se definem por deslocamentos e rupturas e novas conceituações de postulados. Apresenta-se aqui um breve resumo das três fases para marcamos o percurso escolhido e os conceitos mobilizados nesse estudo.

Conforme Fernandes (2008, p.92) “os percursos da Análise do Discurso, na França e no Brasil, são marcados por irrupções e deslocamentos que se colocam no interior dessa disciplina, e caracteriza suas movências e rupturas”. Na França, a teoria começou a ser delimitada na década de 1960. Dos estudos althusserianos acerca dos aparelhos ideológicos de estado, Michel Pêcheux começa a delinear o primeiro momento da AD que “foi pensado como uma exploração metodológica de uma noção de maquinaria discursiva” (FERNANDES, 2008, p.87). O sujeito é tratado nessa primeira fase como assujeitado e com a ilusão de ser fonte ou origem do discurso. Na AD2 surge a noção de formação discursiva e a delimitação de novos conceitos como a noção de pré-construído.

Nesse momento de formulação teórica aparece também no interior das reflexões, a noção de interdiscurso designando o exterior de uma formação discursiva. Porém, a definição de sujeito discursivo permanece como efeito de assujeitamento à formação discursiva com a qual ele se identifica. (FERNANDES, 2008, p.88)

Na AD3, Pêcheux influenciado pelos estudos de Foucault, procurando traçar os pontos conexos e desconexos de sua teoria com a deste autor, e aproveitando os estudos sobre heterogeneidade discursiva de Authier-Revuz, desconstrói a maquinaria discursiva e da visão de homogeneidade começam as reflexões sobre a heterogeneidade enunciativa que levam à discussão sobre o discurso-outro (Cf. FERNANDES, 2008, p.89).

Só então depois dessas reformulações e reflexões a AD começa a chegar ao solo brasileiro, em meados de 1983. Fernandes justifica a “demora” para que o pensamento pecheutiano e foucaultiano chegasse ao Brasil:

E se a Análise do Discurso, iniciada na França na década de 1960, começou a ter lugar no Brasil somente a partir da década de 1980 é porque a natureza política observada desde suas bases, seu convite para que olhemos por trás das palavras, e ainda a constatação de que por trás das palavras pronunciadas outras são ditas, necessitariam de condições de produção historicamente favoráveis à sua implementação. Portanto, foi preciso esperar a abertura política iniciada com o fim da ditadura militar. (FERNANDES, 2008, p.90)

É claro que uma teoria que advinha das releituras de Althusser das teses de Marx e que mostrava a opacidade da linguagem, não poderia passar despercebida e barrada pelos militares da época. Mas eis que com a abertura política, intelectuais e pensadores brasileiros puderam resgatar o questionamento e a reflexão por ora congeladas no Brasil e repensar o momento político até então vividos sob óticas, por exemplo, como a obra Microfísica do Poder (FOUCAULT, 1996).

A partir desses percursos originados na França, convivem diversas tendências em AD com suas interfaces, principalmente no Brasil. Uma das tendências faz interdisciplinaridade com a História e outra com a Psicanálise. É da primeira que trata este artigo.

Nessa abordagem teórica serão conceituados discurso, acontecimento, autor e autoria e a escrita de si. A contextualização da AD aqui apresentada mostra que a visão de discurso utilizada nesse estudo contempla os procedimentos metodológicos advindos da AD3 e de sua explosão no Brasil, a partir da década de 1980.

O “Dicionário de Análise do Discurso”, de Charaudeau e Maingueneau (2008), diferencia o discurso do texto, como aquele sendo concebido como a inclusão de um texto em seu contexto, levando em condição então o seu contexto sócio-histórico-ideológico. No caso deste trabalho em que se observa o Blog do Folhateen, o texto ali inserido no suporte virtual é a materialidade, mas a análise aqui empreendida enfoca o discurso que esses textos manifestam. Portanto, o que disseram os adolescentes escrileitores desse suporte, em qual momento, ou seja, em qual conjuntura sócio-histórico-ideológica e os efeitos de sentido produzidos pelos discursos desses sujeitos. Foucault concebe o discurso como dispersão de textos e de acontecimentos, já fazendo uma conexão com o conceito de acontecimento discursivo do qual também trata Pêcheux em fases finais de sua produção bibliográfica.

É preciso estar pronto para acolher cada momento do discurso em sua irrupção de acontecimentos, nessa pontualidade em que aparece e nessa dispersão temporal que lhe permite ser repetido, sabido, esquecido, transformado, apagado até nos menores traços, escondido bem longe de todos os olhares, na poeira dos livros. Não é preciso remeter o discurso à longínqua presença da origem; é preciso tratá-lo no jogo de sua instância. (FOUCAULT, 2009, p.28)

O discurso como acontecimento traz à margem da cena enunciativa discursos já-ditos, referências à memória discursiva de uma dada sociedade, mas que podem desestabilizar sentidos e instaurar uma ressignificação assumindo “novas” maneiras de dizer. Em Ferreira (2001, p.11) encontramos definido em verbete, o acontecimento como “ponto em que um enunciado rompe com a estrutura vigente, instaurando um novo processo discursivo”.

Na análise do texto “Merda e Ouro”, publicado no Blog do Folhateen no dia 18 de agosto de 2011, sob a autoria de Julia Oliveira, cabe verificar até em que ponto os discursos, que são oriundos de práticas de leituras e escritas diversas ancoradas na fluidez da modernidade líquida contemporânea, para usar um conceito do sociólogo Zygmunt Bauman, são acontecimentos discursivos. Pergunta-se: qual a “nova” rede de dizeres que instaura Julia Oliveira ao citar um poema de Paulo Leminsky, os interdiscursos? Em que esses efeitos de sentido influenciam na constituição desse sujeito e de sua identidade adolescente enquanto um escritor e leitor tomando uma posição de um jornalista resenhista, pautado para um veículo destinado ao público jovem e que percorre todo o mundo, via internet?

Diante desses questionamentos e ao saber que todo discurso está submetido a uma aparelhagem, a uma ordem, que determina os dizeres e as ideologias circulantes num espaço social é preciso aqui chamar em debate a questão do autor e da autoria. Entender o autor como autoridade de um enunciado e como o responsável e o chanceler daquele discurso que foi emitido, não basta para tomarmos esse conceito numa perspectiva discursiva maior. Foucault era um inquietante pesquisador da autoria e até dedicou ao tema uma obra inteira. O livro “O que é um autor?” será usado nessa discussão para delimitarmos o conceito de autor e também a escrita de si. Diz Foucault sobre: “A noção de autor constitui o momento forte da individualização na história das ideias, dos conhecimentos, das literaturas, na história da filosofia também, e na das ciências”. (FOUCAULT, 2006, p.33)

Nessa ótica o autor expressa a singularidade do sujeito de um discurso. Se o discurso nunca é novo totalmente, se sempre no dizer de um sujeito há por trás outros sujeitos, quais sejam o pai, a mãe, o patrão, o presidente da República, o autor significa uma possibilidade de controlar a dispersão e a deriva de um texto e dar a ele uma marca característica que faz com que ele possa ser classificado dentro de um princípio de autoria.

O autor é igualmente o princípio de uma certa unidade de escrita, pelo que todas as diferenças são reduzidas pelos princípios da evolução, da maturação ou da influência. O autor é ainda aquilo que permite ultrapassar as contradições que podem manifestar-se numa série de textos: deve haver – a um certo nível do seu pensamento e do seu desejo, da sua consciência ou do seu inconsciente – um ponto a partir do qual as contradições se resolvem, os elementos incompatíveis encaixam finalmente uns nos outros ou se organizam em torno de uma contradição fundamental ou originária. Em suma, o autor é uma espécie de foco de expressão, que, sob formas mais ou menos acabadas, se manifesta da mesma maneira, e com o mesmo valor, nas obras, nos rascunhos, nas cartas, nos fragmentos, etc. (FOUCAULT, 2006, pp. 53-54)

Ou seja, por mais opaca que seja a linguagem e por diversos devaneios e transformações pelos quais possam passar um sujeito, na função-autor ele consegue manter a sua identidade.

Podemos definir o espaço do Blog do Folhateen como um espaço de, pelo menos, tentar-se ser um autor e ainda aproveitando outro conceito Foucaultiano, ser autor de uma escrita de si. As tecnologias de si, ou tecnologias do eu, são técnicas que Foucault procurou descrever como toda e qualquer transformação ou manifestação que têm como princípio a fixação de uma identidade, a marca de um sujeito em seu registro. É como se fosse um olho ao contrário. Assim como o olho enxerga o exterior, as técnicas de si seriam um olho interior que registra aquilo que o sujeito percebe e reflete em si e que ao mesmo tempo demarca suas práticas discursivas em sociedade. “Como elemento do treino de si, a escrita tem, para utilizar uma expressão de Plutarco, uma função etopoiética: é um operador da transformação da verdade em ethos”. (FOUCAULT, 2006, p.134)

No último texto da coletânea “O que é um autor?”, denominado “A escrita de si”, também presente em outras publicações do autor, Foucault exemplifica duas técnicas que podem ser consideradas como uma escrita de si: os hypomnemata e a correspondência. O primeiro seriam cadernos de anotações na antiguidade que serviam como cadernos pessoais, livros de contabilidade e outros. Para entender melhor a técnica da escrita de si, o trecho abaixo demonstra com maior clareza:

É a própria alma que há de constituir naquilo que se escreve; todavia, tal como um homem traz no rosto a semelhança natural com os seus antepassados, assim é bom que se possa aperceber naquilo que escreve a filiação de pensamentos que ficaram gravados na sua alma. Pelo jogo das leituras escolhidas e da escrita assimiladora, deve tornar-se possível formar para si próprio uma identidade através da qual se lê uma genealogia espiritual inteira. (FOUCAULT, 2006, p.145)

Por meio das leituras e escritas do Blog do Folhateen revela-se a identidade do sujeito adolescente e perceber-se-á os discursos, as práticas discursivas e a posição-autor dentro de um espaço virtual em que o sentido pode vir a ser outro.

Danilo Vizibeli

Jornalista e Mestrando em Linguística

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