O Palhaço: identidade, valores e a busca de si
Fui hoje ver o filme “O Palhaço”, produzido e dirigido pelo passense Selton Mello. Tive o privilégio de ir ao cinema desarmado de todo e qualquer preconceito com o filme, pois em conversa com diversos amigos que já haviam assistido pude perceber a temática, desenvolver reflexões antes mesmo de conhecê-lo. Os comentários que ouvi nas últimas semanas travavam uma guerra tendo de um lado pessoas admiradas, encantadas com o filme e de outro pessoas que o acharam fútil, sem conteúdo e parado.
Eu disse que iria assisti-lo e só depois expressaria minha opinião, mas pelo que o lado da direita estava falando eu acreditava que iria gostar do filme e que as reflexões que o pessoal estava fazendo eram válidas e muito proveitosas.
Parado é um adjetivo que se pode empregar ao filme. Mas eu questiono por que um filme não pode ser parado ou mais lento? Porque estamos tão acostumados a ver efeitos especiais hollywoodianos, a correr no dia-a-dia, que tudo tem que ser explosivo, banalizante, rápido, excessivo e todos os superlativos que podemos empreender. O singular, o muito com o mínimo, deixa de ser aceito. Por coincidência ontem fui a uma grande festa de aniversário e muito me estranhou como as comemorações humanas vêm acontecendo. A equipe musical das festas não tocam mais os diversos gêneros musicais, quando no passado quem gostava de dançar colado, dançava; quem gostava de sertanejo tinha… E hoje, somente sobram quando muito o rock, ou a eletrônica ou então as pérolas (in)consumíveis.
“O Palhaço” é um longa no qual emerge a busca da identidade, a reafirmação de valores esquecidos no mundo moderno e a busca de si, o estudo do interior do sujeito como ser único, dotado de emoção e razão. O que mais me surpreendeu é que a trama faz uma intersecção com a realidade. Tudo é pensado e proposital no filme. A escolha do elenco com os passenses Renato Macedo e Pritty, figurações de Yákara Pioto e até Tia Heliza Faria Pereira, a citação de Passos, a cidade natal de Selton Mello, tudo isso mostra um drama também vivenciado pelo diretor e ator, o qual declarou em entrevista ao Portal iG. Colocar gente de Passos no vídeo e a própria cidade como um destino pretendido por Benjamin faz como que a trama e arte de Selton se aproximem da temática e do palhaço Pangaré.
Uma reportagem do Portal iG veiculada quando da pré-estreia do filme em 7 de julho de 2011 diz:
Benjamim é o palhaço Pangaré, que coordena com o pai, o também palhaço Puro Sangue (Paulo José, soberbo), o Circo Esperança, uma trupe itinerante no interior do país, talvez na década de 1980. Ele faz as rotinas típicas do personagem, diverte a plateia no picadeiro, só não é feliz. Benjamim tem a fala baixa, sobrancelhas caídas e ar melancólico – melancolia, aliás, que dá o tom nos bastidores (curioso como um nariz de palhaço na testa pode traduzir tristeza). Um depressivo em potencial, vivendo em conflito. “Eu faço o povo rir, mas quem vai me fazer rir?”, pergunta em determinado momento.
São respostas que o povo todo nesse momento balbuciante que a Terra vive se pergunta: quem me faz rir? Uma das frases finais me chamou a atenção. Quando o Palhaço Pangaré ao retornar, com o seu ventilador que foi buscar e conseguiu em Passos após uma decepção amorosa, após ter se enganado e pensando que uma moça simples e caipira de Passos queria amá-lo e devorá-lo sentimentalmente, mas não ela queria apenas dizer que o circo era bom. Ela já estava casada. Enquanto Pangaré achava que precisava de um amor, na verdade ele precisava apenas do simples ventilador, que está presente o tempo todo no filme, mostrando que assim como o aparelho renova o ar, circula, nunca está no mesmo ponto, está sempre rodando, a vida também deve estar. Somos seres da mudança e as pessoas precisam encarar que os outros mudam.
E quando Pangaré volta e seu pai lhe pergunta: “o que você faz aqui?” Ele diz: “Agora já sei. É que o gato bebe leite, o rato come queijo e eu sou O Palhaço”, citando o nome do filme e a frase dita por um outro personagem a seu pai. O Palhaço não é mais qualquer um, redescobre-se, identifica-se e é O Palhaço! E a Esperança do Circo Esperança se renova na menina que vem substituir a geradora de toda a mudança, a que disse a Pangaré que ele precisava de um ventilador. Enquanto os valores estavam invertidos, o pai de Benjamim, o Palhaço Puro Sangue, tendo relações com “a sirigaita” (que me foge o nome da personagem),a menina que via e presenciava as falcatruas dela é a esperança que não está perdida, pois ela fora abençoada e protegida pelo protetor e padroeiro do circo e das artes: São Firmino. Ser o que se é: predestinação e ao mesmo tempo conquista; o dom e ao mesmo tempo a descoberta do dom, da capacidade, do ser-si. Somente a arte, a poesia da vida, a convivência pessoal, fraterna e,
sobretudo familiar, fazem essa construção do eu, do si. A trupe do Circo Esperança é a grande família de “O Palhaço”.
Danilo Vizibeli
Jornalista, Professor e Mestrando em Linguística
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15/11/2011 às 01:09
Danilo, como aprendiz palhaço de hospital que sou, não pude deixar de ir ao cinema ver o filme, além de ter ganhado o Festival Selton Mello do ano passado. Mas discordo completamente da sua opinião sobre o filme, o que conhecia sobre roteiros do Selton foi o que eu vi no curta – muito bom por sinal – que ele encenou junto com o ator do Zé Bonitinho. Fui também assisti-lo sem nenhum preconceito, o que eu sabia sobre, era o que tinha lido na sinopse. Sinopse, aliás, que enche os olhos. Amei ver o Renato e a Pritty, que já foi minha professora de teatro, no filme. Mas achei o roteiro sem profundidade alguma e tão mal escrito e/ou dirigido que a superficialidade da história não dá chances para que o público crie laços e se identifique com os personagens. No entanto, não posso negar que acho sim que o Selton ainda vá crescer muito nesse ramo, afinal, este é apenas o primeiro filme dirigido por ele. Mas é inegável o fracasso do filme e da direção, e quem tem experiência com bons diretores sabe: se estabelecida a ligação de público e personagem, mesmo que a história seja ruim, alguma lição se é tirada ou alguma peculiaridade é guardada para todo o sempre. E para não ser injusta e pendente para o lado das grandes produções hollywoodianas, cito aqui um filme que me causou forte impressão – tanto que aos 13 minutos já estava chorando – e que apresenta fotografia, produção e roteiro nem de longe de primeira classe, até porque é antigo: Tomates Verdes Fritos.
Ta aí um filme de ritmo lento e sem grandes efeitos. E apesar do nome nada chamativo, como em ‘O Palhaço’, a história nos persuade a continuar colados na tela durate duas horas, sempre emocionados, chorando por um personagem ou outro, tirando lições de vida e nos comparando aos personagens.
Sem propagandas, sem um grande trailer e sem título chamativo, teve poder sobre tudo em que ‘O Palhaço’ não teve força para se tornar: uma história que perdurará em nossa mente e que nos faz querer assisti-la de novo e de novo só pra não perder a magia dos personagens. E nos fazendo rir, ao pensar que daqui a 10, 20, 30 anos, ou mesmo amanhã, podemos acordar sentindo a magica
do filme bater no nosso coração e nos trazer de novo os sonhos que sonhamos ao vislumbrá-lo pela primeira vez.
16/11/2011 às 09:45
Jovem Elissa, não existe fracasso do filme ou da direção, o filme está entre os mais assistidos, com recordes de bilheteria e com a crítica de cinema tecendo vários elogios sobre Selton e seu “Palhaço” nos principais jornais do país. É um filme simples, que fala sobre uma crise profissional que todos nós sofremos em algum momento da vida e que, por uma gentileza do diretor passense, faz referência à nossa cidade como o lugar dos sonhos, a cidade onde seria possível encontrar um grande amor. A doçura, a poesia e a simplicidade do texto é que o faz rico e uma referencia para o cinema nacional, e para nós passenses, uma homenagem grandiosa e singular.
18/11/2011 às 20:16
Luciana, o fracasso tanto do filme quanto da direção são evidentes a cada parte. Filme de ócio, que se arrasta na tela do cinema e nos deixa esperando mais e mais, enquanto nada acontece. Findando-se com um final broxante, mas ao mesmo tempo gratificante, já que finalmente podemos ir para nossas casas e procurar algo que compense nosso tempo perdido. Podem vir jornais e seus críticos, que aliás são os mesmos que nunca deram um oscar ao magnífico Jim Carrey, ou a bilheteria, que provavelmente foi resultado do trailer enganador divulgado em todas as telas do Brasil. Talvez eu não sinta como vocês sentem porque meu corpo e coração pertencem a minha própria cidade grandiosa e singular, Rio de Janeiro. Mas ainda sustento a minha opinião sobre o fracasso de roteiro do Selton Mello. Prefiro estar sozinha e certa com as minhas convicções, do que errada com a massa.
19/11/2011 às 00:01
*Findando-se broxantemente.
17/11/2011 às 08:28
Meu caro Danilo, não assisti ao filme “O Palhaço” mas, como sempre confio em seu bom gosto e opinião, tenho certeza que quando tiver a oportunidade vou assisti-lo. Você mais do que as outras pessoas que conheço tem a sensibilidade de sempre encontrar o que as histórias querem nos mostrar, nos passar e consegue traduzir em simples, porém , valiosas palavras porque essa é uma qualidade de um excelente professor, compartilhar com os outros o recém adquirido aprendizado.Se é uma história simples, sem aquela magia para prender uma pessoa por duas horas para assisti-lo não sei mas sei que a pessoa que disse isso também assistiu.
18/11/2011 às 16:42
Queridos e divergentes amigos,
Assisti ao filme do nosso querido Selton “O Palhaço” e também fiquei frustrada, para não dizer decepcionada. Não acredito que o filme tenha deixado a desejar por um problema causado pela diferença com as produções hollywoodianas, visto que o filme mais lindo e emocionante que vi em toda a minha vida, “O Milagre de Anne Sullivan”, não se enquadra em nada, neste tipo de produção. A Lu tem razão quando diz que o filme é sucesso de bilheteria, mesmo assim o texto não foi suficiente o bastante para criarmos vínculos, sofrermos, amarmos, enfim, identificarmos com o personagem principal. Essa é a minha real opinião, eu esperava muito mais do que uma homenagem a Passos e ao nosso povo.
18/11/2011 às 18:44
Grande Ana! Fiquei feliz em ter o prazer de ter uma visita em meu blog como a sua. Obrigado pela participação. Concordo com você que o texto poderia ser melhor escrito sim. Realmente o texto do filme é um pouco pobre e e os diálogos pouco entusiásticos. Mas, a simbologia, as escolhas das figuras, dos temas, como o ventilador por exemplo são grandes e significativas. Divulguem meu blog e critiquem se quiser. Nada melhor para um jornalista do que ter um blog que tem bons leitores como vocês. Abraços